Cachorro Racista?
A verdade é que esta atitude agressiva
não é reflexo de preconceitos como nós humanos
entendemos. Mesmo que alguns cães pareçam ser mais
agressivos e desconfiados com determinados grupos de pessoas, cães
não gostam ou deixam de gostar mais ou menos de uma pessoa,
seja ela negra, branca ou oriental, por causa de conceitos prévios
a respeito de uma possível correlação entre
a cor da pele e comportamento "padrão" tal como
muitos humanos fazem.
Se um cão discrimina determinado grupo
de pessoas é porque uma das três razões abaixo
fizeram parte do seu desenvolvimento quando filhote:
1- Ele nunca teve contato ou até mesmo
viu uma pessoas com estas características físicas.
Se um cão for criado apenas numa comunidade
negra ele (o cão) provavelmente irá estranhar, podendo
até demonstrar sinais de agressividade contra brancos. Da
mesma forma cães que nunca tiveram contato com crianças,
pessoas obesas ou que se utilizem de cadeira de rodas irão
estranhar estes grupos.
2- O dono transmite insegurança ou
desaprovação com relação a determinados
tipos de pessoas.
Embora este sentimento possa ser involuntário
e extremamente discreto o cão percebe e reage tentando compensar
a insegurança do dono. Este era exatamente o caso do meu
Pastor Alemão.
Meu cachorro era dotado de muita sensibilidade
e instinto de guarda. Hoje, analisando minha relação
com ele, percebo que todas as vezes que eu avistava um mendigo ou
um bêbado (na época eu devia ter um 15 anos e morria
de medo de ser abordada por estas pessoas) eu retesava a coleira,
puxando o cachorro ainda mais para perto de mim. Não foram
necessárias muitas repetições deste movimento
para que o cão percebesse o meu desconforto e passasse a
dar o aviso aos transeuntes, que se enquadravam neste padrão,
para que não se aproximassem. Neste caso o cheiro (bebida
alcóolica ou da falta de higiene corporal) eram a dica para
que ele começasse a latir ameaçadoramente. Da mesma
forma, na região em que eu morava, era comum que bando de
meninos voltando da praia atacassem pessoas para realizar pequenos
furtos ou apenas para ameaça-las e dar boa risada da cara
de pavor do pobre coitado. Mais uma vez, toda vez que eu avista
um destes bandos eu puxava o cachorro para junto de mim .
E mais uma vez Tiquinho (este era o nome do cão)
vinha em meu socorro.
Nestes casos eu imagino que além do cheiro
de praia, a algazarra dos meninos, e a maneira que eles andavam
pela rua (tentado cobrir um raio suficiente para cercar as pessoas)
deflagrava os instintos do meu bicho. Claro que eu não sabia
o que eu estava fazendo. Eu não estava tentando ensinar ao
meu cachorro a me proteger, mas sempre eu o recompensava, já
que me sentia aliviada com a distancia que estas pessoas mantinham
de nós. Aliás, era uma dupla recompensa: Uma quando
eu acabava acariciando o cão, e outra através das
pessoas que se afastavam. Eu e elas estávamos mostrando ao
Tiquinho que ele estava fazendo um belíssimo trabalho e que
deveria continuar se aperfeiçoando.
Em poucos meses não era preciso mais que
eu visse as pessoas "indesejadas" se aproximando, nem
que eu puxasse a coleira do Tiquinho. Não subestimem os sentidos
de um cão (olfato, visão e audição principalmente).
Bastava estas pessoas estarem a centenas de metros de nós
e Tiquinho logo se arrepiava e se colocava em posição
de defesa (Graças a Deus, nunca de ataque).
3- Determinados grupos de pessoas estimulam
o comportamento desconfiado do cão.
As pessoas que tem medo de cachorro acabam dando
o sinal de que alguma coisa está errada, mesmo quando o dono
e o cão estão tranqüilos.
Foi exatamente isso que aconteceu outro dia quando
eu estava treinando um Rottiweiler de 1 ano e 2 meses.
É bastante comum que quando saio para treinar
cães grandes como o Rott as pessoas evitem de passar muito
perto de nós. Mas num dia em especial eu vinha caminhando
calmamente com este belíssimo exemplar da raça, com
a coleira totalmente frouxa, já que o cão é
totalmente confiável e está quase pronto para andar
sem guia, quando dois jovens negros começaram a andar em
direção contrária a nossa.
Lá de longe eu já havia percebido
que os dois vinham se cutucando e se empurrando e, tal como eu,
o cachorro também percebeu.
Desta vez tenho certeza de que não mandei
nenhum sinal para o Thor. Eu estava absolutamente calma e de espírito
desarmado. Também não poderia enviar nenhum sinal
pela guia, já que a mesma estava passando por trás
do meu pescoço antes de chegar ao cão (justamente
com o propósito de eliminar o vício de corrigir o
cão quando estamos preparando o animal para andar fora da
guia).
Na medida quem que os rapazes se aproximavam de
nós, eles mais se cutucavam e se empurravam, com um tentando
manter o outro próximo da rota do cachorro, enquanto que
o que era empurrado tentava escapar.
A título de verificar o temperamento do
Thor, resolvi manter o meu passo e não interferir na tensão
da guia. Quando estávamos quase cruzando com os rapazes o
Thor começou a rosnar muito baixinho. Era quase inaudível,
na verdade eu podia mais sentir a vibração do corpo
dele junto a minha perna do que propriamente ouvir o rosnado dele.
Imediatamente reforcei o comando para que ele se mantivesse junto
a mim e não toquei na guia. Quando os rapazes estavam paralelos
a nós o Thor finalmente colocou os dentes para fora e começou
a latir, virando a cabeça para acompanhar os dois rapazes
(que nesta hora aceleraram o passo e pararam de se cutucar), porém
sem nunca se afastar do meu lado..
Comentário do rapaz que estava sendo empurrado
para o amigo que ria histérica e nervosamente. "Viu
seu Mané, não falei que estes cachorros não
gostam de pretos?!".
Me controlando para não rir do comentário
que foi dito num misto de pavor e aborrecimento dignos de comédia,
parei, coloquei o Thor na posição deitada e expliquei
para os dois que o cachorro não tinha nada contra a cor da
pele deles. Que apenas tinha reagido à forma que os dois
se aproximaram, que para o cão pareceu diferente, e portanto
suspeita. Resposta dos dois: ‘A senhora pode falar o que quiser
dona, mas eu é que não chego perto destes cachorros,
eles não gostam de pretos e tá acabado!".
Tenho certeza que se esta experiência fosse
repetida mais uma dúzia de vezes, e sempre com pessoas de
pele escura, o Thor iria começar a ter uma atitude suspeita
contra todos os negros, já que ele é criado por uma
família branca e não costuma sair muito às
ruas.
Bom, a esta altura você pode estar se perguntando:
"E se alguém não gosta de judeus? É possível
tornar um cachorro anti-semita?" (Se você não
se perguntou isso não tem importância, estou só
querendo aproveitar para esclarecer a dúvida de um aluno
meu). : -)
Teoricamente não, já que não
existe nenhuma característica aparente e comum a todos os
judeus que o dono ou seu cão pudessem usar como forma de
identificação. A não ser que a pessoa morasse
num lugar onde houvesse uma comunidade ortodoxa. Aí sim,
talvez, quem sabe, os cães pudessem estabelecer uma relação
com as roupas escuras, os chapéus e as barbas longas que
a maioria dos homens desta religião usam. Mas veja bem: Qualquer
pessoa que estivesse trajando o mesmo tipo de roupa, e com as mesmas
características físicas, estaria sujeita ao comportamento
anti-social do cão.
E afinal de contas, qual é a vantagem de
estimular o comportamento anti-social de um cão baseado apenas
na aparência das pessoas? Melhor mesmo é manter os
cães longe deste comportamento horroroso que alguns humanos
desenvolvem.
Mais uma notinha: Este comportamento não
é exclusividade de cachorros grandes. Até um poodle
pode reagir da mesma maneira, mas as raças desenvolvidas
geneticamente com o propósito de guarda são mais sensíveis
e mais reativas do que raças de caça ou de companhia.
Além disso as pessoas tendem a mostrar mais medo de cachorro
grande justamente porque certas raças já possuem a
fama de racistas.
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